25 de julho de 2008

A Poesia de Luís Antonio Cajazeira Ramos

Aqueles que já conferiram a nossa primeira edição, com certeza, notaram o genial trabalho de Luís Antonio Cajazeira Ramos, que nos vem nesta edição como o Poeta Homenageado.

Luís Antônio Cajazeira Ramos nasceu em 12 de agosto de 1956 em Salvador, onde ainda mora. É professor da UCSAL (onde é formado em Educação Física e Direito), funcionário do Banco Central do Brasil, membro da OAB, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e conselheiro editorial da revista Iararana. Tentou ainda os cursos de Engenharia Elétrica e Agronomia, ambos na UFBA, mas os abandonou. Possui poesias em muitas antologias e sempre está a publicar resenhas e poesias em periódicos, cuja listagem de tudo pode ser facilmente encontrada por meios virtuais. Por livros de poesia começou com “Tudo Muito Pouco” em 1983, livro que boa parte da impressão foi queimada pelo autor. Voltou com “Fiat Breu” em 1996 e “Como Se” em 1999, que lhe rendeu menção honrosa do prêmio nacional Cruz e Sousa. Em 2002 saiu “Temporal Temporal”, que recebeu o prêmio Gregório de Matos promovido pela Academia de Letras da Bahia, e em 2007 lançou “Mais que Sempre”, sendo este uma coletânea feita por Cajazeira para comemorar seus cinqüenta anos, acrescido de alguns novos poemas.

Cajazeira é um misto entre o erudito e o vulgar, deixando transparecer uma sensibilidade lírica impetuosa. Seus versos podem ser apreciados por um romântico nato, como em Tudo que fica, ou por aqueles apaixonados por versos soltos e pesados, como em Pantomima. O que mais chama atenção talvez lhe seja o domínio da língua e como ele lida, em muitos dos seus poemas, com uma ‘complexidade entendível’; “Só os que possuem um ouvido absoluto sabem dos sons da palavra. Luís Antonio Cajazeira Ramos tem ouvido absoluto.” (Soares Feitosa, Jornal da Poesia). Em termos de contexto, Cajazeira possui muitos “eus” que somam uma verdade, ele “concede alforria ao personagem de si mesmo” (Antonio Carlos Secchin, orelha de Mais que Sempre).

Ele é díspar, ousado e invasivo. Não há Deus que o subjugue, nem coração que o caiba. Fã da música clássica erudita, seu redentor é Ludwig van Beethoven.

Cheio de peculiaridades, dedica seus livros à Laura Júlia, aquela que ele afirma ser o ‘outro’ num Universo onde tudo seria o ‘eu’.

Alguma poesia do mestre:

Basta, Coração!

Onde jaz, coração, meu peito é morto.
Uma pétala pálida - eis a pele.
Em ardências de vela esvai-se o corpo.
Do porto inútil parte um sol de neve.

Horizontalizaram-se as ladeiras.
Os horizontes viram-se sem prumo.
Os fios desaliaram-se das teias.
O Deus de todos debandou do mundo.

Quanta lágrima súbita? Nenhuma.
O mesmo pranto paira e espraia a bruma.
Mas o olhar sobra ao choro cego e vê.

Nem sei se a vida vale a flor que espreito.
Coração, tem-me à força em dor sem jeito.
Eu morro de vergonha de você.

(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

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Véspera do dia dos mortos

Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.

(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

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Pantomima

Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.

O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.

As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.

Somente a ovelha negra fica impune
...enquanto o bom pastor toca sua flauta.

(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

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Um comentário:

inerthie disse...

Preciso parabenizar o ótimo trabalho de vocês. a primeira edição está simplesmente incrível. Como aspirante à escritor e como pessoa identifiquei-me imensamente.